AS NOSSAS HISTÓRIAS

TELEFONE ESCONDIDO COM A FICHA DE FORA

Um colega nosso, já falecido, contava, com agraça que lhe era peculiar dado o seu bom sentido de humor, algumas histórias por si vividas. Lembro-me de uma que me ficou na memória, relacionado com uma reclamação de chamadas.

Contava ele que, nos inícios dos anos 70 do século passado, ali para os lados da Avenida da Boavista um assinante, da classe média-alta, que habitava num prédio de propriedade horizontal, queixava-se da excessiva facturação. A senhora controlava todas as chamadas que efectuava e não podia ser – não fazia tantas chamadas.

Ligado a linha ao “Meter Check” e registados os números de saída marcados por aquela Linha de rede durante um mês e mostrada a fita à senhora, verificou-se que existiam várias chamadas para um número, interurbano, desconhecido da senhora, e que esta assegurava a pés juntos que jamais tinha feito chamadas para tal número.

Rapidamente se chegou à conclusão que o prefixo daquele número coincidia com o da terra da criada e o que o telefone pertencia ao namorado que ficara da terra e para o qual, na ausência da senhora, a criada ligava para matar saudades.

Problema identificado, problema resolvido: a senhora passou a guardar o telefone num armário, fechado à chave, sempre que saia de casa.

Bem, resolvido não, porque a facturação continuava excessiva e não correspondiam às chamadas que a senhora fazia – Como era possível se só ela usava o telefone e este ficava fechado à chave num armário quando saia de casa?

Ligado novamente ao “Meter Check” continuava a aparecer o mesmo número do namorado da criada. Como assim! Mistério?

Acontecia que, na ausência da senhora, a criada subia ao andar de cima e pedia à sua colega e amiga o telefone emprestado que ligava à ficha do seu andar e ligava para o namorado. Na sua boa fé pensava que, como o telefone era da vizinha, as chamadas não seriam facturadas à sua senhora.

Mais um caso resolvido. Afinal a empresa não era assim tão “ladra”.

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Outro caso que contava, este mais recente no tempo, pois aconteceu no início da digitalização quando algumas centrais já tinham internamente disponível a facturação detalhada, mas ainda não comercializada.

Ora sucedeu que uma senhora de uma certa idade, que vivia sozinha, recebeu uma factura de um valor exorbitante. Aquela senhora era uma assinante com uma facturação muito baixa e que praticamente só usava o telefone para receber chamadas.

Aquela factura ultrapassou todos os limites e só podia ser engano. Jamais teria feito aquelas chamadas de valor acrescentado, nem sabia o que isso era, e logo para uma linha erótica! Uma senhora daquela idade! Não podia ser.

O caso foi facilmente resolvido com a facturação detalhada já disponível naquela central.  Naquele dia, perto do Natal, a senhora foi visitada por familiares. Entre estes um adolescente que, enquanto os pais conversavam com a senhora numa sala, ele noutra divisão onde se encontrava o telefone, se entreteve a fazer ligações para linhas eróticas.

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Duas situações, dois momentos temporais, duas tecnologias diferentes.

Graças à nova tecnologia foi possível identificar o dia e a hora das chamadas para a linha erótica, graça ao registo sistemático de todas as chamadas efectuadas. Com a tecnologia anterior, “Meter Check”, que só permitia registar as chamadas de um número muito reduzido de telefones e só após uma reclamação (ou por outros motivos técnicos), não seria possível chegar-se à conclusão a que se chegou, ficando para sempre a dúvida: teriam sido, de facto, efectuadas aquelas chamadas daquele número?

 

 

JAF

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