Telefone de Coluna

A gravura que serve de reflexão a este texto constitui um documento de grande relevância, tendo em conta o seu papel central naquela que foi a primeira grande campanha publicitária da Anglo Portuguese Telephone (APT), levada a cabo na década de 30 do séc.XX. Não é possível ficar indiferente a este (e pelo menos mais três  cartazes de modelos de telefone), concebidos por um artista plástico de que se desconhece o nome. O objetivo deste trabalho em concreto  serviu na perfeição à Companhia dos Telefones no sentido de promover um novo telefone,  com o intuito de sensibilizar os seus assinantes a instalá-lo em casa.

A aguarela em questão esteve durante algum tempo em exibição numa sala de reuniões dos TLP, em Lisboa, mas não chegou incólume até aos nossos dias, pois segundo várias opiniões acabou por ser destruída num incêndio. No entanto, para memória futura, podemos encontrar fotos dela nos livros “Olhos de Boneca” e “História das Telecomunicações em Portugal – 1877/1990”, ambos de autoria  do Dr. Rogério Santos.

A temática do cartaz transporta-nos para as primeiras décadas do século XX, ao incluir elementos que podem ser enquadrados na belle époque, cujo período nos remete para novos padrões de beleza, inovação e modernidade. O artista quis retratar a época dourada, usando para o efeito duas jovens modelo, retratando-as com requinte e sofisticação, tendo em conta o seu vestuário, penteados e calçado: enquanto uma das  senhoras está sentada fumando com boquilha, a outra empunha, com elegância, um telefone. Precisamente  esse é um dos elementos que desejo evidenciar. Trata-se do novo modelo de telefone, designado por coluna. A razão para o destaque é evidente. No início dos anos 30, a APT procurava cativar uma  classe média urbana com poder aquisitivo, para  a importância de instalar o novo  aparelho. Inteligentemente a empresa usou um cartaz publicitário para captar o interesse, mostrando um telefone que, sublinhando a sua elegância,  pretendia tornar-se num símbolo de modernidade. Há outro detalhe que não passa despercebido: o espelho, estilo art déco, que marca um período artístico que se prolongou até ao fim daquela década.

A grande dimensão do fio do telefone que a jovem empunha chama também a nossa atenção. Será que há 90 anos, a APT  já permitia que se falasse ao telefone com a liberdade de deambular pela sala?  Na opinião da funcionária Maria Oliveira, sim, era possível ter tal comodidade, podendo ainda o cliente optar pelo comprimentos do fio do aparelho. E esclarece: desde que o  assinante pagasse, podia optar por cordões até 5 metros. Outras caraterísticas são de ordem técnica. Segundo o funcionário Alfredo Anciães, o telefone é da marca Siemens, não tinha marcador, e por isso não era automático, mas fazia parte do sistema de bateria central. Neste exemplar,  percebe-se um modernismo libertador em relação aos grandes telefones do passado (o Ericsson e o Edison Gower Bell, por exemplo), que estavam  fixos à parede, pois o novo modelo permitia comunicar enquanto se passeava pela sala. 

Em resultado da automatização das centrais telefónicas, iniciada com a inauguração da central da Trindade, em 1930, vai surgir um novo modelo coluna.  De novo a Companhia idealizou um novo cartaz  publicitário, que se atribui ao prestigiado artista Cunha Barros, (1) com o sugestivo título: O meio mais rápido de comunicação. O aspeto que diferenciou este modelo do anterior cartaz  é,  como refere Rogério Santos,  resume-se ao facto de pertencer a uma fase  posterior, e, por isso, incluir um marcador. Era uma nova era em que definitivamente crescia a  massificação do telefone nas residências de Lisboa e no Porto.

 Autor: Carlos Vieira

(1) Foto: Arquivo da Fundação Portuguesa das Comunicações.

 

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